A Solidão de uma Vida Líquida
A primeira vez que ouvi os termos mundo líquido, vida líquida, tempos líquidos, eu confesso que não entendi, até conhecer a obra do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, morto em 2017, aos 91 anos, com suas faculdades mentais intactas.
Em seus livros, ele fala sobre a comunicação através das mídias sociais e suas dificuldades. Zygmunt chamou esse momento pós-moderno de relações líquidas, isto é, relações efêmeras, sem laços sólidos de afetividades.
E um dos maiores efeitos colaterais das mídias sociais, isso já abordamos aqui no Pense Nisso, é a solidão interativa. O sociólogo afirma que podemos passar horas, dias na internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira relação humana, seja com quem for.
A solidão interativa se espalha nas redes sociais, especialmente no Facebook. São fotos e fotos postadas, a maioria forjando uma felicidade, quando, na verdade, é tudo fake. As mais usuais são aquelas em que o autor se auto-fotografa, as famosas selfies, e sai espalhando-as de um dia para o outro, quando não de uma hora para outra.
E aquelas dos momentos felizes? Sim, tem gente que acha que os seus instantes de lazer e diversão têm que, obrigatoriamente, ser vistos por todos. E lá vai mais um poste ao lado do namorado ou namorada, dos amigos, geralmente com áreas de forçação de barra.
Porque a gaiola do trânsito é uma fórmula, forjada por nós mesmos, só pode ser aberta pela chave da felicidade plena. Temos milhares de amigos nessa cornucópia virtual, nessa caixa de Pandora do século XXI. Eis-nos diante de mais uma quimera: o alto engano.
O alto engano é peça-chave para a nossa sobrevivência. Mentimos não só para os outros, mas, principalmente, para nós mesmos. Mesmo protegidos na redoma da interatividade, continuamos sós, ali onde apenas a solidão nos alcança.
E, enquanto declamamos a torto e a direito, sugerindo que estamos sempre on, a vida verdadeira continua off. E nunca nos damos conta de que, no fim, toda a solidão que nos rodeia, essa sim, é real, porque bytes, bits e pixels não transmitem calor, e o verbo sem o hálito quente é apenas palavra morta.
E, no final, só informamos as nossas quimeras, as nossas fantasias, e nos comunicamos cada vez menos como pessoas reais. E é a isso que chamamos de solidão interativa.
Sigmund Baumann definiu o mundo líquido em que vivemos com estas palavras: é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão, inseridos numa multidão, ao mesmo tempo.
Assim, não será a tecnologia que nos afastará da solidão. Ela ainda se faz presente em nossos olhos, porque não vivenciamos os valores da solidariedade, da compaixão, da fraternidade. E, por mais que a tecnologia se desenvolva, por mais recursos nos ofereça, jamais eliminará a solidão de dentro de nós.
Poderá, sim, agregar milhares de nomes em nossas redes de relacionamento. Porém, para preencher as necessidades do nosso coração, para que nele não haja mais espaço para a solidão, necessitamos cultivar a fraternidade, que pode até se iniciar no mundo virtual, mas será que, inevitavelmente, migrar para a realidade das ações do nosso coração?
Dessa forma, a felicidade não será líquida, e sim, sólida.
Pense nisso, mas pense agora.
18/03/2026 06:30 | DURAÇÃO 5:04