Não venha roubar minha solidão se não tiver algo mais valioso para oferecer em troca.
O título do Pensemisso de hoje foi transcrito da frase proferida pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, conhecido como o filósofo da afirmação da vida.
Nos tempos atuais, tempos de vidas líquidas, onde tudo é descartável, as pessoas se acham cada vez mais na solidão e têm na solidão um estilo de vida positivo. Dia desses, numa enquete feita por um programa radiofônico, foi feita a seguinte pergunta: você acha que é possível ser feliz vivendo sozinho?
Pelas respostas, percebemos que a solidão nos dias de hoje seja mais atraente do que imaginamos. Pessoas diziam que, com tanta gente fútil que nos cerca, a solidão está mais para um remédio. Havia aqueles que opinavam dizendo que a solidão é luxo nos dias atuais. Muitos afirmavam que preferem a solidão como um modo de se protegerem da infâmia do politicamente correto, onde você corre o risco de ser processado por dizer: “Oi!”.
E arrematam: é melhor viver num casulo do que ter uma dor de cabeça explicando o inexplicável.
O que fica claro diante dessas afirmações é que a solidão se tornou uma amiga protetora para nossa sociedade, onde tudo é tão líquido que vê no relacionamento interpessoal um problema que somente a solidão resolve. Em suma, estamos nos tornando misantropos, isto é, vivemos com desconfianças da sociedade da qual fazemos parte.
Existe em nós o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo Arthur Schopenhauer. Quando sentimos frio, nos aproximamos, por necessidade, das pessoas. Mas, ao fazermos isso, espetamos e somos espetados pelos espinhos. E assim vivemos essa tensão: eu quero calor, eu quero proximidade com outras pessoas, mas essas pessoas têm ideias diferentes, gostos diferentes, opiniões dissonantes das minhas. Essas pessoas têm espinhos e, desta forma, nos afastamos para logo mais sentirmos a necessidade de nos aquecer de novo.
Aqui fica a lição de que devemos viver em comunhão, mas sem ocupar o espaço sagrado de cada um. Sim, isso é a arte que poucos dominam.
É por isso que, em nossos dias, as redes sociais fazem tanto sucesso. Elas te aproximam das pessoas, mas sem que fiquem tão próximas a ponto de te espetarem com seus espinhos. Então, com o smartphone nas mãos, eu controlo as distâncias. Com o celular resolvemos o dilema do porco-espinho: ele aproxima, mas sem o risco de ser espetado.
E, por outro lado, eu consigo um certo calor humano — tépido, tênue — mas com algum calor. E, ao mesmo tempo, mantenho a minha solidão controlada.
Não venha roubar minha solidão se não tiver algo mais valioso para oferecer em troca.
Ofertamos, então, aquelas coisas, entre aspas, antiquadas, como, por exemplo, as visitas entre amigos com os intermináveis bate-papos, que hoje se extinguiram graças a dispositivos tecnológicos que permitem contatos na nossa aldeia global sem sair da frente de um visor.
Cultivar amizades, distribuir afagos, buscar companheiros para o entretenimento sadio, aplaudir um teatro, sair com colegas de trabalho para uma tarde de lazer junto à natureza são atos a que todos podemos nos propor.
Aprendamos a desfrutar da companhia do outro, mesmo que, de vez em quando, haja alguns espinhos. Isso faz parte de uma relação menos líquida. No contato humano é que burilamos experiências e sentimentos. Aprendemos a disciplina do próprio proceder.
Portanto, vamos viver uma vida menos líquida e parar de solicitar que a solidão seja sólida.
Pense nisso, mas pense agora.
10/03/2026 06:30 | DURAÇÃO 5:01