UM HERÓI 669 VIDAS
25/05/2026 06:30 | DURAÇÃO 6:02
Notas do Episódio
Quando alguém nos pergunta o que imaginamos ao ouvir a palavra herói, é praticamente unanimidade que nos venha à cabeça a figura masculina com uniforme colado ao corpo, musculoso, uma capa esvoaçante, com o peito estufado e as mãos na cintura. Aposto que foi exatamente isso que você imaginou. Quando, na verdade, esse é apenas um arquétipo que habita o nosso inconsciente coletivo. Poucos imaginaram um bombeiro, médico, policial, enfim, uma pessoa comum. O jovem britânico Nicholas Winton não se encaixaria nesse padrão de herói que a maioria de nós temos no inconsciente, mas ele foi um grande herói, um herói de verdade, de carne e osso. Tudo começou no ano de 1938, quando ele tinha somente 29 anos e viu cancelado seu plano de férias de final de ano. Atendendo ao convite de um amigo, ele foi para a Tchecoslováquia. O que Winton viu o deixou estarrecido. Eram milhares de refugiados desesperados, que tinham que deixar o país rapidamente. De imediato, ele percebeu que deveria fazer algo por eles, e fez. Teve a ideia de retirá-los daquela terra já sob o poder da Alemanha Nazista. Por conta própria, escreveu a vários países pedindo ajuda. Organizou uma primeira lista de nomes e recebeu resposta positiva da Suécia e da Grã-Bretanha. De volta ao seu país, conseguiu o apoio de organizações beneficentes e encontrou pessoas dispostas a adotar os refugiados. Também obteve os recursos necessários para o transporte e, quando o primeiro trem chegou à Grã-Bretanha, lá estava ele, na plataforma, para a recepção. Foram salvas 669 crianças por esse jovem. Crianças que se transformaram em escritores, engenheiros, biólogos, cineastas, construtores, jornalistas e guias turísticos. Todos adultos generosos, que adotaram crianças, trabalham como voluntários e fazem o bem em gratidão pelas suas próprias vidas. Infelizmente, lamentou Nicholas, um novo grupo com quase 200 passageiros não pôde partir para a liberdade porque, no dia 1º de setembro de 1939, eclodiu a guerra. Todos os meios de transporte foram bloqueados e os que não conseguiram sair foram enviados aos campos de concentração. Dizem que quem salva uma vida salva a humanidade. O que se pode dizer de alguém que salvou 669? Mas um herói não para depois de um ato heroico. Por isso, Nicholas tornou-se voluntário da Cruz Vermelha, na França, durante a guerra. Trabalhou posteriormente nas Nações Unidas e, ao se aposentar, dedicou-se exclusivamente ao trabalho voluntário. Vivendo no interior da Inglaterra, ele cuidava do seu jardim e ainda ocupava o seu tempo ajudando um asilo. Não se considerava um herói porque dizia que fez o que todos consideravam impossível. Simplesmente porque o seu lema era: “Se não é obviamente impossível, deve haver uma maneira de fazer”. Discreto, nem mesmo à esposa, com quem se casou em 1948, ele narrou o que fizera. Foi somente em 1988 que o fato se tornou conhecido, quando sua esposa, Greti, encontrou os documentos no sótão da velha casa do casal. Desde então, passou a receber homenagens do governo tcheco, da rainha da Inglaterra, dos Estados Unidos e daqueles que foram salvos por sua atitude heroica e anônima. Sua vida, seus méritos e a operação de resgate estão contidos na biografia escrita por nada menos do que uma das crianças que ele salvou, Vera Gissing, que o conheceu aos 80 anos de idade. Nicholas Winton teve uma vida longa, tranquila e produtiva. Faleceu de forma serena no estado da Inglaterra, aos 106 anos, no dia 1º de julho de 2015. Nicholas Winton sempre será um símbolo de coragem, profunda humanidade e incrível bondade. Um herói se faz com algumas gotas de amor, idealismo e uma grande vontade de promover o bem. Pense nisso, mas pense agora.