SOLIDÃO NUMA MULTIDÃO | Pense Nisso | Cadena
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SOLIDÃO NUMA MULTIDÃO

15/01/2026 06:30 | DURAÇÃO 6:30

Notas do Episódio

O sociólogo polonês Sigmund Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos. Um tempo líquido, em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há observação pausada daquilo que experimentamos. É preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar. O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade. Reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega. O que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo. Em tempos de Facebook, Instagram, WhatsApp, não há desagrados. Se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações. Perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos. As discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida. Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado. Tudo é desvendado. O que se come, o que se compra, o que nos atormenta e o que nos alegra. O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente, a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações. Tudo se torna vacilante. Tudo pode ser deletado. O mundo, o amor e os amigos. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco. Assim, raros são os momentos em que estamos sozinhos. E o medo de estarmos sozinhos nos faz cada vez mais mergulhar nas comunicações, nos contatos. Não poucas vezes vazios e sem significados reais. E o medo da solidão nasce muitas vezes do medo de encontrarmos a nós mesmos. Nossa essência. Como se isso não fosse necessário e inevitável. Assim, fugimos de nós mesmos. Mergulhando nos barulhos do mundo. Afastamo-nos de nós mesmos buscando respostas que, ao final, só poderão ser encontradas em nossa atividade. Por isso, se faz necessário que busquemos a nós mesmos de tempos em tempos. Buscar a solidão para encontrarmo-nos conosco em um reencontro com a própria alma. De maneira tranquila e serena. Sabendo que guardamos em nossa atividade a chave para a nossa felicidade. Será nesses momentos de introspecção que conseguiremos analisar nossas atitudes, nossos valores e sentimentos. Quando fazemos silêncio exterior, damos vazão ao mundo interno. Intenso e palpitante e que, muitas vezes, relegamos ao esquecimento. Nessas horas, teremos a oportunidade de entender nossas reações. Repensar nossos atos. Ponderar valores e atitudes para os próximos embates. Somente assim, ao permitirmos esse encontro conosco mesmos, conseguiremos alçar a patamares mais maduros e tranquilos em nosso mundo emocional. Dessa forma, a solidão será oportuna, companheira, a ser buscada. Para que possamos nos encontrar e conhecer. Permitamo-nos, assim, com regularidade, evadirmo-nos do mundo. Buscando momentos de solidão, onde teremos apenas a nós mesmos para conversar. Aproveitemo-nos para rever, repensar ações, horas de dificuldade e apreensão. Serão esses espaços de solidão que nos permitirão reavaliar atitudes para, nas próximas experiências, evitar que venhamos a repetir os mesmos erros em idênticas situações. Se nos permitirmos esse encontro interior, continuaremos a ser aqueles que tropeçamos em nós mesmos, sem saber por que, nem como, tentando achar algum culpado, quando, na verdade, somos apenas nós a andar, sem rumo e sem autoconhecimento. A sós, todos os dias, alguns momentos para reflexionar a respeito do que fazemos. Como fazemos nos permitirá o autoconhecimento. E essa é a chave do progresso individual. Pensemos nisso, mas pensemos agora.