O QUE É VIRTUAL?
10/04/2026 06:30 | DURAÇÃO 4:37
Notas do Episódio
Entrei apressado e com fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada, pois eu queria aproveitar os poucos minutos de que dispunha para comer. Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim. Tio, dá um trocado. Não tenho menino, só uma moeda para eu comprar pão. Está bem, compro um para você. Para variar, minha caixa de entradas estava lotada. Fico distraído vendo poesias e dando risadas com as piadas malucas. Tio, pode pôr margarina e queijo também? Percebi que o menino tinha ficado ali. Ok, mas depois me deixe trabalhar. Chega minha refeição, faço o pedido do menino e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto sair. Minha consciência me impede de dizer sim. Digo que está tudo bem. Deixa eu ficar. Traga pão e mais uma refeição decente para ele. Então o menino se senta à minha frente e pergunta Tio, o que você está fazendo? Ah, estou lendo uns e-mails. O que são e-mails? São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via internet. É como se fosse uma carta, só que via internet. Tio, você tem internet? Tenho sim, é essencial no mundo de hoje. O que é internet? Internet é um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas. Notícias, músicas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem tudo no mundo virtual. O que é virtual, Tio? Eu dou uma explicação simples. Certo de que ele pouco vai entender. E aí vou poder comer sem culpas. O que é virtual? Virtual é um local que imaginamos algo que não podemos pegar, não podemos tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse. Legal isso, Tio. Gostei. Mocinho, você entendeu o que é virtual? Sim, Tio. Eu também vivo nesse mundo virtual. Você tem computador? Não. Mas meu mundo também é desse jeito. Minha mãe fica todo dia fora. Só chega muito tarde. Quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmãozinho pequeno que vive chorando de fome. E eu dou água pra ele pensar que é sopa. Sempre imagino nossa família toda junta em casa. Muita comida, muitos brinquedos de Natal. E eu indo pra escola pra virar médico um dia. Isso não é virtual, Tio? Fechei meu notebook. Não antes que as lágrimas viessem aos olhos. Esperei que o menino terminasse de literalmente devorar o prato dele. Paguei a conta e dei o troco para o garoto. Que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que eu já recebi na vida. E com um, obrigado Tio, você é legal. Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias. Enquanto a realidade cruel rodeia de verdade. E fazemos de conta que não percebemos. Hoje, o estar no virtual tem nos impedido de nos relacionarmos com quem mais precisa no mundo real. Tanta gente precisa de atenção, de cuidado, de alguém que se importe e estenda a mão. Faça o bem. O virtual jamais vai atender à demanda de quem muito precisa. Vamos sair do virtual e ter ações e atitudes concretas. Pense nisso. Mas, pense agora.