TELHA DE VIDROS
04/02/2026 06:30 | DURAÇÃO 4:45
Notas do Episódio
TELHA DE VÍDRO Nem sempre a vida segue o curso que se deseja, que se espera. Assim foi com Raquel. Depois da morte de seus pais, ela, ainda bem moça, deixou a cidade em que nascera para morar na fazenda, com os tios que mal conhecia. Morava na casa que havia sido construída por seu bisavô há muito tempo. Era uma casa muito antiga, e a maior parte dos móveis eram peças pesadas e escuras que ali estavam há mais tempo do que as pessoas saberiam dizer. Seus tios eram pessoas simples, acostumados com a vida que sempre viveram, desconfiados com tudo que pudesse alterar a rotina que lhes dava a segurança. A chegada de Raquel representou para eles um certo transtorno. Onde ficaria instalada a sobrinha? Como não havia um cômodo mais apropriado, deram-lhe um quarto pequeno, que ficava no sótão. Nem o tamanho reduzido, nem o cheiro de mofo incomodaram Raquel. O que há em tristecia naquele quartinho abafado era apenas o fato de não ter janelas. Não se podia ver o sol, nem o céu, nem as árvores do quintal ou as flores do jardim. A luz limitava-se a entrar timidamente pela porta. A falta de claridade parecia encher ainda mais de tristeza o coração dolorido daquela moça. Até que um dia, depois de muito ter chorado em silêncio, decidida a voltar a sorrir, ela pediu que lhe trouxessem da cidade uma telha de vidro. Um pouco desconfiados, seus tios acabaram cedendo. Daí, um milagre aconteceu. Mesmo sem janelas, o quarto de Raquel, antes tão sombrio, passou a ser a peça mais alegre da fazenda, que, ao meio dia, aparecia uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos que, só a partir de então, conheceram a luz do dia. A lua branda e fria também se mostrava, às vezes, pelo clarão da telha milagrosa. E algumas estrelas audaciosas arriscaram surgir no espelho onde a moça se penteava. O quartinho que era feio e sem vida, fazendo os dias de Raquel cinzentos, frios, sem luar e sem clarão, agora estava diferente. Passou a ser cheio de claridade, luzes e brilho. Raquel voltou a sorrir. Toda essa mudança só porque um dia ela, insatisfeita com a própria tristeza, decidiu colocar uma telha de vidro no telhado daquela casa antiga, trazendo para dentro da sua vida a luz e a alegria que faltavam. Muitas vezes, presos a hábitos de vida e em situações consolidadas, deixamos de lado verdades que nos fazem felizes. Deixamos que a ausência de janelas em nossa vida escureça nossas perspectivas, enchendo de sombras o nosso sorriso e o nosso cotidiano. Vamos nos acomodando, aceitando estruturas que sempre foram assim e que ninguém pensou em alterar, ou que não se atreveu a tanto. Mudanças e reformas são necessárias e sadias. Nem todas dão certo ou surtem o efeito que desejaríamos. Porém, cabe nos avaliar a realidade em que nos encontramos e traçar metas para buscar as melhorias pretendidas. Não podemos esquecer, porém, que em busca de nossos sonhos de felicidade não devemos simplesmente passar por cima dos direitos dos outros. Nesse particular, cabe nos seguir a orientação de que ninguém precisa, precisa passar por cima dos outros para ter o que quer, ou para ser feliz. Não devemos desistir dos nossos sonhos, a menos que esse sonho custe a felicidade de outrem. Tornarmos pessoas más e agir de forma fria e calculista só trará consequências nefastas, pois sabemos que o que plantamos sempre colhemos, o que vai sempre volta. É lei, é certo. Se for para ser feliz, que seja de uma forma honesta e justa. Pense nisso, mas pense agora.