A DUREZA DA VIDA
03/02/2026 06:30 | DURAÇÃO 5:01
Notas do Episódio
A dureza da vida Sim, a vida é dura. Em tempos de supervalorização da literatura de autoajuda, em que se acredita que pensamento positivo resolve tudo e temos que agradecer simplesmente por estarmos vivos, é complicado admitir para si mesmo e para os outros que a vida é dura. Essa mensagem se destina a quem tem senso de realidade e não teme olhar para as próprias feridas. Essa mensagem se destina a quem não teme reconhecer que a vida poderia ser trocentas vezes melhor e que, mesmo quando estamos bem e felizes, a vida é dura, incerta, cheia de perigos e possibilidades assustadoras. Como diz Kazusa em uma de suas músicas, a vida é bem mais perigosa que a morte. Sim. Existem as possibilidades agradáveis também. Viver é estar super feliz de manhã porque tivemos uma noite incrível e logo à tarde nos deparar com uma notícia péssima. Viver é estar se debulhando em lágrimas para logo em seguida ser invadido por um pensamento redentor que nos salva da tristeza e desespero. Viver é estar feliz com o seu trabalho e saber que você está desempenhando de forma eficaz e com paixão as suas tarefas e, logo em seguida, o seu chefe lhe entregar uma carta de advertência por um pequeno deslize seu. Viver é alternar estados de espírito. É passar pelo pior e pelo melhor. Às vezes numa única semana, num único dia. É ganhar e ficar com medo de perder. É perder e se sentir apaticamente tranquilo por saber que não há mais nada a perder. Viver é saber que depois dos 50 anos você tem mais passar do que futuro e, mesmo assim, fazer projetos para o futuro e manter o seu bom ânimo e otimismo. Viver é lutar diariamente pela sobrevivência material, pelo amor próprio, pelo amor da pessoa amada. E quando estamos bem de dinheiro, estamos mal no amor. E quando estamos bem no amor, estamos mal de dinheiro. E quando temos dinheiro suficiente para viver e temos a alegria do amor, nos falta a saúde ou nos falta qualquer coisa que nem sabíamos que era importante para a gente quando a tínhamos. Sim, sempre uma das teclas do piano está quebrada. Sempre estamos em conflito em relação a algum tema ou a alguma pessoa ou a nós mesmos. Ou é o presente que não está bom, ou é o futuro que nos amedronta, ou é o passado que vem tomar com a gente. Um café adoçado com fél. Sofremos pelo que aconteceu e por aquilo que também poderia ter acontecido e não aconteceu. E nós queríamos que acontecesse. Sofremos até mesmo por aquilo que não aconteceu e não queríamos realmente que acontecesse. Os ufanistas acharão essa mensagem profundamente pessimista. Mas o objetivo não é fazer ninguém se deitar em posição fetal. Pelo contrário, é mostrar que a vida é isso mesmo. E que, se você está se sentindo confuso, triste ou sem saber o que pensar ou como agir diante de uma situação complicada, não há nada de errado com você. É isso mesmo, esta é a vida caótica, linda e implacável. Não se sinta culpado se você não consegue ser essa pessoa que os bambans de palestras de autoajuda pedem para você ser. São os 12 passos para ser um. Vencedor, os vencendo desafios e conquistando a felicidade, os high performance, que você acaba se achando um zero esquerda. Depois de anos nos maltratando, exigindo façanhas impossíveis, melhorar a autoestima parece ser mais uma daquelas metas absurdas e, no final das contas, acabam nos causando mais sofrimento. O caso é que a autoestima virou um novo produto da moda. Estão aparecendo cursos voltados para esse assunto, reportagens na TV, matérias em revistas, Facebook, cujo intuito é vender mais um produto. A vida não tem uma fórmula concreta. A vida não é um manual de instrução. A vida é, apesar de tudo, um hino de louvor a você mesmo. Viva a vida! Pense nisso, mas pense agora.