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VILAREJO SCALA DEI
Eu adoro as lendas do mundo do vinho. Conta-se que, no século XII, os monges da ordem de cartucha, os mesmos do vinho português Cartuxa famoso, procuravam um lugar para construir um novo mosteiro. Encontraram um pastor que lhes informou sobre um lugar onde os anjos subiam aos céus por uma escada. Construíram exatamente nesse local o mosteiro chamado Scala dei e plantaram vinhas, elaborando vinhos. Ao redor do mosteiro nasceu o vilarejo de Scala dei. Mais tarde, a região ficou conhecida como Priorat, ou Priorato, que significa comunidade religiosa. Para entender melhor a região, a Denominação de Origem Controlada Priorat, que faz parte da Catalunha, cultiva uvas como garnacha tinta e carinhenha. Elabora vinhos clássicos, com aromas de cereja em calda. Os vinhos do Priorato costumam estagiar pelo menos 12 meses em carvalho. O Priorato recebeu a denominação de origem de qualidade, o título máximo de denominação espanhola. A região tem produzido vinhos espetaculares, potentes, concentrados e longevos. Vale lembrar que a Catalunha tem baixa produtividade, devido à condição climática de baixo índice pluviométrico. São vinhos de coloração intensa, boa textura e taninos afinados. Um dos principais produtores chama-se Álvaro Palácios. Se você também busca novidades, experimente um espanhol do Priorato, porque Espanha não é só tempranillo.

VINÍCOLAS NA CATALUNHA
Hoje vamos para a região da Catalunha, ao norte da Espanha. A região da Catalunha é a área vinícula com maior número de denominações de origem controlada. Entre as mais conhecidas estão Costa del Segre, Monsan, Penedes, Priorat e Cava, bastante conhecido. Ao todo, são 12 subregiões, mas hoje vamos entender melhor a denominação de origem cava. Primeiro, que cava, em espanhol, é masculino, então não é a cava, e sim o cava. O clima da Catalunha é de poucas chuvas, e isso faz com que as videiras apresentem uma baixa produtividade, obrigando as uvas a se concentrarem mais em aromas e sabores. Daí, o resultado são vinhos de coloração profunda, excelente textura, e a denominação de vinhos no estilo cava foi exclusividade da Catalunha durante muito tempo e ainda é responsável por 85% da produção. Porém, hoje os espumantes espanhóis em todo o território podem ser chamados de cava. São elaborados no mesmo método tradicional dos famosos champanhas, mas o sabor é bem diferente, já que as uvas são distintas. Enquanto em champanhas se usa Pinot Noir, Pinot Munir e Chardonnay, na Espanha você utiliza Chareolot, Macabeu e Pareliada para fazer os cavas, além das uvas Pinot Noir, Garnacha e Monastrel para os cavas rosados e tintos. Desde 1960, o cava ganha o mercado, pois a qualidade cresceu com as novas regras de elaboração e o uso de novas tecnologias, e chegou a ser chamado de champanhe espanhol. O bom disso tudo é que o cava é mais suave, mais frutado que os champanhes franceses e é bem mais barato também. São três estilos de cavas que você vai encontrar nos rótulos em supermercados. Os cavas de selo branco são os mais jovens, com 9 meses de maturação; os de selo verde são as reservas, com 15 meses de maturação; e os de selo negro, os gran reserva, com 30 meses de maturação. É super fácil harmonizar cava, porque vai com quase tudo, desde os embutidos da Catalunha aos mariscos, como arroz e açafrão, lembrando sempre de manter a moderação.

HARMONIZAÇÃO DO NOVO MUNDO
E um bom dia para você que está curtindo a Centro América FM. Só aqui você tem música e vinho. Seguindo a tradição de harmonizações de pratos típicos da Europa, Itália, França, Espanha e Portugal, pensei nas harmonizações com pratos típicos dos países do Novo Mundo, que são compostos por Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Escolhi alguns deles para falar hoje no Música e Vinho. Qual estilo de vinho melhor combina com feijoada brasileira e as empanadas argentinas? Do Chile, escolhi o prato Congrio Rosa, um peixe chamado Congrio, servido como se fosse um bacalhau, com batatas, legumes e muito azeite. A harmonização clássica fica com um vinho branco de Sauvignon Blanc, que o Chile é especialista. Sauvignon Blanc do Chile tem até um gostinho de sal na boca, que vem dos ventos do Pacífico. Para quem ama as empanadas argentinas, aqueles pratos típicos do Música e Vinho, pastéis assados e com recheios diversos, tem um vinho bom pra você. Vamos considerar o recheio mais tradicional, de carnes e calabresa, e vamos direto para uma assemblage entre as uvas Malbec e Sihá. Da Austrália, a costelinha de porco ao molho barbecue é uma tradição, e a harmonização fica com os vinhos de Sihá com Cabernet, o corte típico da Austrália. E, pra fechar as harmonizações do Novo Mundo, o nosso país, Brasil, com uma infinidade de pratos típicos. Mas eu escolhi a feijoada, descendente de tantas riquezas que os negros nos deixaram, como música, danças, costumes e a comida. Um prato de coloração negra e que mostra a melhor harmonização de contrastes. Casou super bem com o estilo de vinho que o Brasil é campeão: os transparentes, translúcidos, que borbulham na taça e dançam, subindo pra nos cumprimentar e mostrar os seus aromas. Feijoada combina super bem com espumante brasileiro, Brute. Lembre-se sempre de manter a moderação e, se beber, não dirija. E, se você quiser compartilhar as suas experiências, pode usar a hashtag música e vinho através das redes sociais.

UVA SYRAH
Quer saber mais sobre o mundo do vinho? Na província de Carmelo, no Uruguai, está localizado a bodega boutique El Legado. Produz entre 8 e 10 mil garrafas por ano, e a produção com as atuais uvas Sirra, Taná e Vionier começou somente em 2007. Degustei o blend Taná-Sirra, com 14% de graduação ocólica. Tive que decantar, é claro: muito álcool. O vinho era negro, 80% de Taná e 20% de Sirra. Então, ele ganha muita coloração das duas uvas. Aromas de frutas negras, tostado, especiarias. Um vinho super complexo, encorpado, mas de taninos extremamente aveludados. Daqueles vinhos musculosos, de tão encorpados. Um vinhaço, um achado do meu amigo Marcelo Pádua. Harmonizei com ossobuco e polenta, porque precisava de maciez e suculência. Eu quero saber o que você também está degustando, o que você encontrou de novos vinhos. É só compartilhar conosco, usando a hashtag musicvinho, através das redes sociais.

UVA CARMÉNÈRE
Chile é o país símbolo da uva carmener, e todo mundo já conhece a história de que a carmener era plantada como merlot por engano, até ser descoberta a real origem da uva carmener, já na década de 90. As mais antigas uvas carmeneres estão plantadas no vale de Aumauê, que pertence a Cachapoal. As videiras de carmener estão plantadas desde 1945. São vinhas de mais de 70 anos; por isso, o vale do Aumauê é considerado berço original da carmener no Chile. A vinha Clos de Luz é uma casa que busca resgatar a cultura vitivinícola do Chile e está localizada exatamente nessa região. O vinho Massal 1945, da uva carmener, traz toda essa cultura e expressão. É um vinho tinto, elegante e potente, com altas notas herbáceas, típico da uva carmener. Tem ainda um, uma cremosidade com toques de chocolate e tabaco. A vinha Close de Luz tem ainda o Vinho Azul da Garnacha, totalmente diferente da uva Carmener. A uva Garnacha é bem mais leve, com notas florais; um vinho mais vibrante e fresco, para acompanhar pratos com molhos e temperos herbáceos e frescos. O Vinho Azul da Garnacha recebeu 93 pontos no guia Descorchados da Safra de 2015. Tem muita novidade no Chile para você degustar.

VINHOS E VIAGENS
Se você ama vinhos e ama viajar, vamos unir o útil ao agradável. Programe todo o seu roteiro em função de vinícolas, museus e wine bars pelo mundo. De Roma a Sicília dá para fazer em 10 dias. Começando por Roma, na região dos famosos Frascati: vinhos brancos feitos de Malvasia, Trebbiano e a uva Greco. Com passeios aos famosos pontos turísticos de Roma, passando por vários roteiros gastronômicos e enogastronômicos, misturando vinho e comida, e visita à vinícola Pallavicini. De Roma para Catânia, na ilha da Sicília, onde você pode visitar a vinícola Benanti e curtir o wine bar Wine & Charm à noite. De Catânia para a cidade de Siracusa, visita-se a azienda agrícola Pupillo. De Siracusa para a cidade de Agrigento, visita-se a vinícola Feudo Principi di Butera. De Butera, em seguida Palermo, para conhecer a vinícola Cusumano e a Alessandro di Camporeale. Um roteiro para se degustar os vinhos do Lazio, em Roma, são os famosos Frascati: dos leves aos encorpados, dos secos aos vinhos de sobremesa. E os vinhos da região da Sicília, com uvas como Nero d’Avola, Nerello Mascalese e até os fortificados vinhos Marsala. Mais uma sugestão de enoturismo para você viajar e curtir. Lembrando sempre de manter a moderação.

VINHO COLONIAL
Quem nunca bebeu vinho colonial? O vinho com aquele gostinho de uva que lembra um pouquinho de morango. São os vinhos feitos quase 100% das uvas Isabel. Essa é a principal uva cultivada no Brasil. E olha a diferença: 218,38 milhões de litros dos vinhos consumidos no Brasil são da uva Isabel, contra 38,71 milhões de litros de vinhos consumidos que são das uvas viníferas, os famosos vinhos finos. A Isabel é a uva que melhor se adaptou ao terroir brasileiro, pela sua resistência e robustez. É a uva dos vinhos docinhos e alegres, que ajudaram no longo e difícil caminho dos imigrantes italianos no Brasil. Os sucos de uva brasileiros são elaborados com a uva Isabel. E os vinhos elaborados com a uva Isabel são intensos, com aroma de morango, docinhos, com baixo custo, só que não mais de baixa qualidade como antigamente. A Embrapa, por exemplo, considerando a relevância da uva Isabel, a selecionou para estudos de melhoramento genético e a evolução de seus clones. Já não se fazem garrafões como antigamente, para a nossa alegria. Cada vez mais, a uva Isabel vem trazendo qualidade em vinhos coloniais e também em sucos de uva.

